sábado, 25 de outubro de 2014

Cannonball Adderley - Dancing in the Dark


Elegância em sentimentos sonoros. (JRT)



Miles Davis with Cannonball Adderley One For Daddy-0


Pura expressão de rico sentimento musical
e com muita elegância. One For Daddy-0
é lindo de morrer. (JRT)





Canção de Amor da Floresta do Amazônas (Heitor Villa-Lobos) - Antonio Carlos Barbosa Lima




Executada ao violão, dá pra sentir em Canção de Amor o ambiente musical das ruas do Rio de Janeiro no início do séc.XX aonde (assim como em São Paulo e em outras cidades) eram percorridas por grupos de seresteiros e choristas, dos quais Villa-Lobos se compunha e, daí sua grande inspiração em sua obra musical que viria mais tarde. Abaixo segue Canção de Amor do trecho operístico de The Forest of Amazon, com Bidu Sayão. Também vale citar que Villa por muito tempo relutou compor The Forest Amazon para a Metro Golswin Mayer, Um belo dia ele aceitou compô-la mas livre do enredo do filme e que depois gerou atrito na adaptação. Pena que no YouTube não há o regristro completo desta obra, apenas pequeno trechos, aliás, talvez só a encontre em disco vinil, o que é de se lamentar em se tratando de uma das mais belas obras musicais já escritas pela humanidade. (JRT)

Acorda, vem ver a lua
Que dorme na noite escura
Que surge tão bela e branca
Derramando doçura
Clara chama silente
Ardendo meu sonhar

As asas da noite que surgem

E correm no espaço profundo
Oh, doce amada, desperta
Vem dar teu calor ao luar

Quisera saber-te minha

Na hora serena e calma
A sombra confia ao vento
O limite da espera
Quando dentro da noite
Reclama o teu amor

Acorda, vem olhar a lua

Que brilha na noite escura
Querida, és linda e meiga
Sentir meu amor e sonhar


sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Victor Hugo e a Moça da Bolsa (Conto do Subúrbio Jdí/SP)


Estação da Luz (Google Imagens)

Nem me dou conta, mas o vagão do trem está quase lotado. Meus olhos caem no piso sobre sapatinhos pretos de cadarço, formato masculino. Detenho-me sobre curiosas meias pretas de bolinhas brancas em vertical. Subo os olhos. Pequenas e femininas mãos cansadas se soltam sobre o colo, mas logo se cansam.

Sobre uma surrada calça preta de vinco as palmas das mãos viram-se como o desabrochar de uma flor já exaurida, como uma oração pro alto. Os joelhos juntos... era uma mulher, uma pequenina mulher. À frente do seu rosto havia uma mochila de alguém agarrado ao balaustre.

Horário de verão: 14:30 h. Trinta graus lá fora. Camiseta de vermelho desbotado e com manga até o punho, aliás, tudo o que ela vestia era de reaproveitamento de uso.”Tadinha”, sentia eu ao pensar que talvez ela nem se lembrasse da última peça de roupa que comprara para uso próprio.

Duas paradas adiante e vejo uma bolsa da última moda sobre o seu colo. Certamente ela estava acompanhada, e por sua filha, pois segurava a bolsa como se fosse a coisa mais importante da vida dela. Pensei: seria aquela senhorinha um anjo que andava no subúrbio?

O trem segue e depois de algumas estações alguém sai de frente da moça. Ela era grande, forte, com brilhos nos olhos e vendia beleza e saúde - talvez uns dezoito anos de idade. Vestia-se impecavelmente como à uma entrevista para emprego. A bolsa combinava com os demais tons em pastel que ela vestia com descrição e elegância.

Sua perna esquerda cruzava à frente da senhorinha e o braço direito circunda-a em descanso sobre o banco. Toda em sorrisos conversava com alguém sentado depois da mãe, um tipo de malandro já sambado.

Ele, de compleição física semelhante à de um jogador de bola ao certo,  segurava a mão de uma outra moça sem predicados de qualquer tipo de beleza a não ser volumosos seios e que parecia não se importar com o que acontecia ao seu lado ou da indiferença do tal malandro para com ela.

Estações adiante e já não havia ninguém impedindo minha visão da senhorinha. De cabelos secos, lavados a sabonete, carregava nas mãos e no rosto as marcas do massacre pela vida. Certamente ela teria uns vinte anos a menos dos sessenta que aparentava.

O celular toca dentro da bolsa. Abre-a e dá o aparelho para a filha que o desliga devolvendo para ser guardado na bolsa. Desta vez ela segura a bolsa com as duas mãos sobre as alças. Novamente vejo-a como em oração. Apesar das agudas e lancinantes discrepâncias, ela era, sem dúvida, a mãe da moça.  
Finalmente o subúrbio chega à última estação. Desço primeiro que eles. Quando saem do trem vejo que a namorada do malandro escafedeu-se. Do alto da escada rolante, acompanho-o descendo de mãos dadas com a moça e sua bolsa. E a senhorinha? Esperei, esperei, e não a vi passar.

Meus pensamentos se voltaram para o lado cruel da sociedade humana e, de repente, na Estação da Luz me encontro com Victor Hugo. Em “Os Miseráveis” ele cita três problemas do século XIX:  “a degradação do homem pelo proletariado, a prostituição da mulher pela fome, a atrofia da criança pela ignorância.”

Em pleno século XXI, o anjo do subúrbio era apenas uma sobrevivente da fome, ela e a filha. A moça da bolsa era o seu maior investimento, e suas orações se transmutaram para um extremo conflito interno. Enfim... quanta dor...

JRToffanetto

Led Zeppelin - Out on the Tiles e Celebration Day






quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Maria Regina e eu - A propósito de Vivaldi

FotoJRToffanetto


A Regina e eu/















Enamorava-me por ela, cada vez mais, dia após o outro. Cada vez mais, um instante após o outro. Cada vez mais, ano após ano, todos os anos, anos inteiros, e ainda é assim, cada vez mais.

Este meu blogue foi um desejo dela manifestado quatro anos atrás. Um veículo onde materializo meu gosto pela escrita. Nele também posto músicas que estão tocando-nos algum sentimento.

Quando namorados, certa vez ela me telefonou da casa dela com um fundo musical. "A Primavera" de Vivaldi tornara-se, então, eterna para nós. 

Perguntei-lhe sobre Vivaldi, e ela me contou ser ele um homem piedoso. Ensinava música para crianças rejeitadas pelas famílias, ou por serem muito feias, ou por terem algum defeito físico. 

Com elas Vivaldi se apresentava publicamente com as cortinas cerradas. Como ele também estava à serviço da música, se as descerrassem, certamente a plateia se esvaziaria. 

A humanidade evoluiu muito desde o período barroco de então, e eu também ao lado de Maria Regina, desde o período barroco, desde a pedra e o tacape, desde o pó das estrelas. (JRToffanetto)