domingo, 2 de agosto de 2015

FotografiaDeRuaNuaCrua - 3 (JRToffanetto)


Ontem, descendo a Rua Pedro de Toledo em São Paulo me deparei com um cenário urbano que cuidei de fotografar. 

Cercando uma obra de construção civil, fizeram arte/grafite sobre os tapumes retratando cenários de pessoas em janelas de metrô e subúrbio. Cenas chocantes, afinal eu acabara de usar os dois meios de transporte coletivo e ainda me sentia acachapado pelo caldo humano. 

Andava sentindo-me com o peso de um vagão. ou como se diz "de um caminhão nas costas". Aquelas imagens deprimentes... Na esquina, o vagão de ponta puxava (arrastava) as assombrosas janelinhas. Entendo que a arte deva mostrar o belo no sentido de que este possa fazer atração maior do que aí está. Tal grafite ultrapassava a verossimilhança da realidade mas apenas por ampliar o peso da condição humana até o estado de choque. 

Chocar os passantes ou eletrocutá-los de vez? Arte denúncia, arte reportagem ou sei lá o que. É muito, muito pouco sem apontar uma saída. Nem ouso expor por aqui tais janelas que não se abrem para a luz do olhar. Congestioná-los ainda mais é falta de criatividade, e logo naquela região de inúmeros hospitais, ambulatórios, consultórios de especialidades, faculdade de medicina e hordas de gente circulando pra cima e pra baixo em busca não apenas de saúde mas da recuperação de sua dignidade. Já é tão dificil enfrentar a realidade, imagine então doente. Imagine um grafite de visão limitada a machucar, a doer de fazer dó. Oras, que este pseudo-artista mentor desta insanidade vá catar lata.

Enfim, ocorreu-me a seguinte imagem mental em forma de desenho: 
Abelhas gigantescas carregando homens para fora dos vagões e os levando às flores para que provassem do néctar e com ele fabricassem o mel, isto é, trabalhassem pelo gosto doce do sonho suado, igual a sorriso, igual à felicidade. Enfim, com esta criação mental me senti de volta a mim mesmo. 

Eu já tinha visto o desenho que finalizava as janelinhas, o do vagão da ponta (foto acima). Mas agora uma placa de sinalização pregada ao desenho se sobrepunha à cena por advertir o trânsito de pedestres e de veículos, assim escrito: "CUIDADO Entrada e Saída de Caminhões”. 

Pra mim daquele vagão nada sai ou quem entra sai pelo cano.

JRToffanetto

Veja também:
FotografiaDeRuaNuaCrua - 1 (JRToffanetto)
FotografiaDeRuaNuaCrua - 2 (JRToffanetto)

Sydney Bechet _Si tu vois ma mère (Midnight in Paris)




FotografiaDeRuaNuaCrua - 2 (JRToffanetto)


A caminho de São Paulo, saí de casa as 06:11h  e logo depois de descer do terraço com a imagem acima. 

Descendo para a Av. dos Ferroviários, deparei-me com a imagem abaixo. Alguém forrou o chão com papelão para dormir num canto sob a copa de uma árvore, e até fez um anteparo contra a aragem fria da madrugada. Mas a julgar pelo tanto de ciscos caidos sobre, parece-me que o cidadão teve que abandonar o local para se por em movimento e não morrer de frio.



Do lado esquerdo da avenida:




Enfim, aqui fecho a seção de imagens até a Estação Ferroviária de Jundiaí, mas ainda falta as de São Paulo e que me geram uma crônica ainda faltante de revisão. A aventura continua em FotografiaDeRuaNuaCrua - 3 (JRToffanetto).

Thelonious Monk - Bright Mississippi.

Monk, um estilo único de improvisar e tocar 
junto à uma impecável banda de músicos.



FotografiaDeRuaNuaCrua - 1 (JRToffanetto)

Fotografo com os recursos que tenho em mãos. Máquina fotográfica dependurada na cinta e prontamente sacada mediante sentimentos incidentais ao olhar que se avultam no meio do caminho por onde vou. Às vezes eu os encontro sussurrando, ora gritando pela urgência do registro, ora em contagem regressiva para o enquadramento e disparo fotográfico. Alguns me dizem assim "fotografa logo e depois você decodifica o registro". Em alguns casos, a imagem está completa. Como deixar de registrá-la independente dos afazares que o movem pelo dia? Nisso tudo, não creio que a exiguidade do tempo seja vilão. Descobri que não era aquele momento. Num outro dia um incidente me diz "é agora, meu". O único trabalho que tenho é a posterior, e tanto melhor, o de aproximação e recorte imagens, no mais, vivo a aventura do olhar, do sentir. Chamo-as de FotografiaDeRuaNuaCrua porque gostei da forma que encontrei para as nominatar. Enfim, sinto-as como um mundo em descoberta e onde tudo pode caber, inclusive o compartilhar. Quem sabe um dia eu ande um pouco mais instrumentalmente equipado, mas por hora nem devo ocupar-me disto. Imagens da minha Sony Cybershot 14.1 mega pixels é tudo que preciso.

Na sexta feira fiz um caminho de ida e volta de trem à São Paulo, cidade esta que é um pedaço de quebra-cabeça que volta se encaixar em mim toda vez que pra lá eu vou. Eu poderia fazer uma exposição desde o registro da primeira imagem e seguir pela ordem, mas decidi por estas duas imagens à caminho da Estação Ferroviária de Jundiaí.


Aram Khachaturian Cello Concerto e-moll



https://www.youtube.com/watch?v=HbkWS8wXqMg
Tchaikovsky Symphony Orchestra, conductor Vladimir Fedoseyev, 
Denis Shapovalov, cello. Moscow Conservatory Great Hall, 2003

sábado, 1 de agosto de 2015