quarta-feira, 16 de agosto de 2017

O "santinho" da Sala de Espera - Crônica verídica (JRToffanetto)

“O “Santinho” da Sala de Espera - 
Enfezado, rabugento ou infeliz? 

"Mas um velho rabugento é obra-prima do diabo."
(Tereza de Ávila)

   Vindo da sala de espera, um velhinho com cara de santinho, ignora minha vez com senha na mão, debruça-se sobre o balcão despejando reclamação em cima de reclamação sobre atendente.
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   Simpática e tolerante, ela tenta aclará-lo, fazer um curativo sobre a impaciência dele:
   - Uma espera a mais ou a menos... pense que o senhor aqui está para cuidar da tua saúde. Todos aqui temos o maior interesse que o senhor fique bem. Assista televisão que o tempo passa melhor, ou pegue uma revista pra ver.
   Sala de espera, televisão e revista, era-lhe um remédio contraindicado.
- Televisão e revistas não servem pra coisa nenhuma.
   Ela o suporta até certo limite. Interrompe redirecionndo-o de volta à Sala de Espera. A contragosto ele dá um passo naquela direção mas se volta de peito encolhido e fazendo cara de coitadinho penitente. Tenta chantageá-la emocionalmente. Com voz fraquinha, quase sumida:
- Santo Deus... já fiquei naquela sala por uma...hora...e...meia...
- Lembro-me bem do senhor, retruca ela com um sorriso. Sicrano Escafandro, e Escafandro com ésse mudo, né! Não fazem vinte minutos que te encaminhei à Sala de Espera, tá registrado aqui no computador. Como eu já te disse, volte pra lá e espere ser chamado pelo médico.
   O “santinho” endireita a coluna e  tem um despropositado faniquito:
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- Então está registrado errado, moça. Desde quanto vinte minutos é uma hora e meia. Você está achando o quê? Não, dona, eu não sou cachorro não, ouviu? Vocês vão se arrepender por isto. Mexa-se desta cadeira. Quero ser atendido agora..
- Como já te disse, volte e aguarde até o médico te chamar. Agora, dá licença que tenho mais o que fazer, e dispara o sinal sonoro de chamada fom meu número de senha piscando para mim.

   Logo depois, vou pra Sala de Espera e me sento em uma das cadeiras vazias bem à frente da Sala 5. A porta estava aberta. Ouço o médico dizendo a alguém:
- Eu sigo a ordem das pastas sobre minha mesa. Por favor, "seu" Sicrano, aguarde aí na Sala de Espera que eu já que te chamo...
- Mas... mas...
- Como acabei de te dizer, fique lá, sentadinho, que eu já te chamo.
E chama da sala "Sr. Fulano de Tal e Qual".
   
   O "santinho" vem se assentar ao meu lado com a coluna arqueada e, de novo, com carinha de fazer dó. Diz-me com voz esvanecida:
 - Fazem duas horas e meia que estou aqui esperando.
   Agregar-me à sua insatisfação, seu azedume? Respondi-lhe:
- Agora mesmo eu estive te observando no balcão de atendimento. O problema é que pra você Sala de Espera faz horas a mais, mas só pra você. Responda-me, você é feliz?
   Revira-se na cadeira. Mostrava-se enfezado. Por fim, levanta-se e se dirige ao banheiro.
Cinco minutos depois:
Sala 5, o médico chama: Sicrano Scafandro!
   Pra muitos, Salas de Espera funcionam como câmaras de dilatação do tempo. Se nelas não adoecem, muitos, com permanente feição de quem tomou remédio amargo, encurtam seu prazo de validade. 
 Sala 5: Sicrano Scafandro.... 
Sicrano...

Outros usam seu espírito tranqüilo como antídoto. Alongam-se para entrar em rodas de conversa ao redor. Tudo ajuda engolir o tempo, especialmente quando se joga conversa fora.
  Sr. Sicrano... Sr. Sicrano Scafandro...
  Na sala 2: “Sr.Beltrano Brando...”
  Sr. Sicrano... Sicrano Scafandro...
Por fim, o médico entra na Sala de Espera com estetoscópio preso ao pescoço e medidor de pressão na mão. Pareceu-se aliviado por localizar o Sicrano. Aproxima-se e vê que os olhos do “santinho” nem se mexem à frente da televisão no alto da parede, parece nem respirar. Tenta abrir-lhe a jaqueta para ouvir seu coração. Então eu disse ao médico:
- Doutor, ele só tá fazendo teatro. Conheço bem esta peça.
Na sala 2: “Sr.Beltrano Brando...”
   Mas o médico, concentrado no seu procedimento, ouviu-me sem dar atenção. 
   Como um raio, o suposto moribundo prende o punho do médico que mostra sentir-se dominado por algo assustador: mão descarnada, ossuda, tão fria quanto a de um cadáver. Logo vi que “o santinho” enterrara o unhão do polegar contra o punho do médico que só não gritou de dor.
Na sala 2: “Beltrano Brandão... Beltrano...”
   Um grandalhão da fileira de trás observara o mesmo que eu. Levanta-se e cochicha no ouvido do Sicrano algo a haver com unha. Palavras mágicas que imediatamente fazem o “santinho” soltar o antebraço do médico.
   A médica da Sala 2 entra na Sala de Espera com estetoscópio preso ao pescoço e medidor de pressão na mão.
Sr. Beltrano... Beltrano Brando...

(JRToffanetto)

P.S.: Se Sala de Espera fosse remédio, muitos estariam curados antes mesmo da consulta médica, ou com seus problemas financeiros sanados antes mesmo de serem chamados pelo gerente do banco.

MARCOS ARIEL - TREM DAS SETE

www.marcosariel.com.br


Estação da Luz



segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Rubem Alves _Fiquei Velho (trechos de extrema delicadeza, belos)


Rubem Alves (1933-2014)
"Muito tarde aprendi os limites da palavra. Alguns pensam que seus argumentos, por sua clareza e lógica, são capazes de convencer. Levou tempo para que eu compreendesse que o que convence não é a “letra” do que falamos – é a “música” que se ouve nos interstício de nossa fala. A razão só entende a letra. Mas a alma só ouve música. O segredo da comunicação é a poesia. Porque poesia é precisamente isto: o uso das palavras para produzir música. Pianista usa piano, violeiro usa viola, flautista usa flauta - o poeta usa palavras." (Rubens Alves em (Envelhecendo XIII - Fiquei velho, do livro “As cores do crepúsculo: A estética do envelhecer”. Ed.Papirus)

Assim que li o texto acima, uma delicadeza musical, voltei as páginas do livro à pura emoção de "Um certo olhar, III. O Crepúsculo", uma extrema delicadeza, uma essência no ar, o belo cantando na alma, uma emoção a nos consubstanciar. Escreve-nos assim:

"Um dos livros mais lindos que já li é A chama da vela, de Gaston Bachelard. É uma meditação sobre a velhice. Mas o escritor, talvez por pudor, medo que o leitor abandonasse o livro antes de lê-lo - pois quem se interessaria pela velhice? - preferiu fazer silêncio. E, ao invés, falou sobre a chama de uma vela. Imagino que é provável que ele tivesse se sentido como eu, diante dos olhos de alguma mulher que lhe tivesse feito alguma gentileza. Ou como Frost, que via medo nas uvas já queimadas de geada. Bachelardd também foi tocado pela uvas outonais. Mas ele via nelas coisas que Frost não viu:

Quando o sol de agosto já trabalhou as primeiras seivas, o fogo lentamente vem até o cacho. A uva clareia. O cacho transforma-se num lustre que brilha sob o abajur de folhas largas. Foi para cobrir o cacho de uvas que a pudica folha da vinha primeiro serviu."

Manto de estrelas cobre o crepúsculo e o descobre em aurora, o nascimento, a vida em primavera, ciclicamente nova e bela da última chama da vela. Somos a vela. (JRToffanetto)