“...através da poesia perpassa a pureza e, por causa dela,
parecem-nos lindas e encantadoras as crianças”
Jacob e Wilhelm Grimm
O poeta tem uma cigarra dentro do peito.
Para aquela cigarra o verão é permanente.
A popular motivação cruel e irônica para com a vida cotidiana logrou, com Esopo (séc. VI a.C), o primeiro conjunto de fábulas de que se tem notícia. Destas, “A Cigarra e a Formiga” é, nos dias de hoje, a mais conhecida que já se escreveu, rivalizando-se, inclusive, com os mais famosos contos de fada.
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Dissequemos esta Formiga e não encontraremos sentimentos que a identifiquem com o ser humano em seu estado de eu natural, bom e compassivo. Com o material ideologismo dominando sua consciência, acabou por extraviar qualquer sentimento de nobreza, incluído o da partilha em consideração ao bem comum. Escapou-lhe o significado da vida, fugiu-lhe o espírito da dimensão humanística, faltaram-lhe, enfim, qualidades do espírito e da alma, sobrando insensibilidade, desrespeito, falta de compaixão para com a infelicidade do próximo. No depender da Formiga e seu modo de vida estático, as Cigarras já estariam extintas desde o início dos tempos. Quanto à Cigarra, possivelmente, só bateu à porta da casa da outra por alguma situação que lhe fugira ao controle. Vejamos, porém, o que aconteceu logo após aquela sinistra frase esopina:
As perninhas da Cigarra amoleceram ao ouvir aquilo, dobraram-se como num cadafalso, gerando um balanço do seu corpo que a virou de barriga para cima, atraindo a atenção da Formiga e sua ninhada. Comeram-na viva, como petisco, pelas beiradas, pedacinho a pedacinho. Acima das impiedosas cortadeiras sob a boca voraz, a Formiga pôde ver, afinal, a Cigarra “dançar”.
Do infortúnio da Cigarra, muitos podem conferir a lição do custo da imprevidência. Só os doentes psicossociais, profundamente egoístas, alinham-se com a Formiga. Mas em se pensar que tal fábula possa ser útil para uma criança é não saber nada do amor como pureza de expressão do belo, a quintessência da vida humana a ser salvaguardada.
A criança, afinal, precisa de idéias para acreditar que vencerá. Só com esperança ela pode, quando chegar a hora, ir à luta, conquistar a sua autovalorização, a sua identidade e, por fim, vencer para ser feliz. Fosse a Cigarra um exemplo disto, a fábula teria se transformado num conto de fadas.
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É como fazem com a citada fábula de Esopo e, pior, usando-a como atrativo de venda de livros embrulhados como literatura infantil, como uma conhecida autora de livros infantis teve a infelicidade de fazer. Não convém olharmos melhor o que chega às mãos de nossas crianças como literatura infantil e, do mesmo modo, em relação a música, filmes, modismos ou, pelo menos, trazer um pouco mais de luz para a vida da criança em contraponto com o aberrante e desvirtuado mundo do consumismo em seu significado do prazer para já? É esta a Cigarra esopina?
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A nossa formiguinha era emocionalmente evoluída, tocada pelo sentimento do belo, pois teve a virtude de transformar a aflição da cigarra em um bem, tanto para aquela quanto para o formigueiro que, em acolhimento a ela, transformara-se em festa. Comprazer-se em fazer o bem é, deste modo, uma delícia. Depois desta primeira formiguinha, as mal-amadas que viessem, logo seriam reconhecidas pelas crianças e ainda que intentassem invadir seus jardins, saberiam preservar o mundo do seu coração.
Lobato também teve o cuidado de aludir que cigarras são os poetas, os músicos, os pintores, pois ele próprio era uma cigarra, uma cigarra que compreendia muito bem a separação entre pensamento adulto para criança e imaginação infantil. Porque era um artista de verdade – uma formiga com alma de cigarra (ou vice-versa), idealista, portanto –, soube fazer a necessária integração daqueles personagens ao mundo infantil. Pena que seu conto sofreu, popularmente, sérias distorções.
A Cigarra, comportando-se de modo subserviente, bem ao gosto da soberania absoluta da Formiga, convence-a da importância do canto e, assim, é acolhida. A Formiga, inflexível por dois mil e seiscentos anos, deixa-se enrolar por um subterfúgio pouco convincente e mesmo piegas. Ela que nunca fez diferença entre mato ou jardim para derrubar, pôde, então, reconhecer o belo através de uma expressão artística para a qual, até o último verão, não tivera ouvidos ou coração para sentir.
Salvo Lobato, a tal fábula e demais adaptações grosseiras não se prestam para crianças. Particularmente, acredito naquilo que participa na regeneração da humanidade, onde qualidades universais são exaltadas. A fábula de Esopo desce o ser humano ao mundo dos desafetos e, especialmente para as crianças, um prejuízo de alto custo para o futuro. Os “Três Porquinhos”, “João e o pé de feijão” e outros contos de fada fazem melhor do que a citada fábula de Esopo, mas isto já é uma outra história.
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“(...) compreensão, amor, gentileza, a não agressividade, a humildade...
Essas são as armas do bem.” Dr. Celso Charuri
Jairo Ramos Toffanetto
(Imagens extraídas da Internet)
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